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China Hard Power

Hard Power chinês

“Aumentamos o desenvolvimento de armas e equipamentos e fizemos grandes progressos no aumento da preparação militar. As forças armadas do povo deram passos sólidos no caminho da construção de um poderoso exército com características chinesas.”

Xi Jinping (18/10/2017 [tradução própria])1.

Poder pode ter siginficados distintos na política chinesa, podendo ser referente à identidade internacional da República Popular da China (RPC) como potência em ascensão ou “superpotência potencial”. Também pode se referir aos meios ou recursos pelos quais Pequim busca seus objetivos de política externa: poder militar, poder econômico ou poder tecnológico. “A busca pelo poder pode até constituir o objetivo final da China na política mundial.2” Ao contrário do soft power, o hard power é um tipo de poder que é mais fácil de ser percebido, uma vez que está muito ligado aos recursos de uma nação, principalmente recursos econômicos e militares. “A conversão de poder – partir dos recursos e chegar a resultados comportamentais – é uma variável crucial. Ter recursos do poder não garante que você sempre consiga os resultados desejados.” (Nye Jr., 2012: 29)3. O hard power é um tipo de poder mais antigo que o soft power apresentado no artigo Soft Power com características chinesas, os estados-nação formados a partir da Paz de Westphalia4 eram centrados em acumular poder econômico e militar como expressão de força nas relações internacionais e para garantir seus interesses nos conflitos armados recorrentes5.

“[…] Criar hard power requer muito menos tempo, pois seus recursos são tangíveis. Em contraste, o soft power leva relativamente mais tempo para ser construído à medida que seus recursos intangíveis se desenvolvem por um longo período de tempo. Da mesma forma, a dimensão temporal do ganho de estratégias de hard power e soft power difere: enquanto a coerção militar ou econômica tende a resultar em um resultado imediato, mas de curta duração, a atração e a persuasão tendem a causar mudanças de longo prazo. Isso se deve a um aspecto inerente do conceito: como o hard power força uma pessoa a agir de uma maneira diferente de seu comportamento usual, isso é involuntário. Pelo contrário, o soft power muda a atitude de uma pessoa a ponto de agir voluntariamente de uma forma diferente de seu comportamento usual.”

Jan-Philipp N. E. Wagner (14/05/2014 [tradução própria])6.

O constante crescimento econômico-militar chinês das últimas três décadas tem deixado a comunidade internacional apreensiva, principalmente no que toca a região do Leste-Asiático, onde os Estados Unidos (EUA) possui presença constante desde o fim da Guerra Fria7. Os EUA mantém alianças militares que cercam a China, com países como Austrália, Coréia do Sul, Filipinas, Japão e Tailândia, além de manter contatos extra-oficiais com Taiwan, o calcanhar de Aquiles da República Popular da China (RPC). Ademais, após a Guerra ao Terror8 da Era Bush, a militarização das áreas que cercam a China aumentou consideravelmente, um dos motivos pelos quais o país viu necessidade em investir em tecnologia militar, apesar de Pequim calcular que uma guerra mundial é improvável num futuro imediato, o país deve estar preparado para a possibilidade de uma guerra local9. O aprimoramento das forças militares do Exército de Libertação Popular (人民解放军 | PLA, em sua sigla em inglês), a primeira desde sua fundação em 1927, fez com que a comunidade internacional visse uma bandeira vermelha surgindo no horizonte. Aqui cabe mencionar que o estilo de luta desde a Era Mao mudou consideravelmente, enquanto as estratégias chinesas eram voltadas para combates terrestres até o início do Século XXI; hoje as forças armadas chinesas além das capacidades convencionais – terra, mar e ar – possuem armas químicas, nucleares e espaciais como meios de deter ou vencer um conflito1; 10.

O PLA é subdivido em quatro frentes: o Exército (中国人民解放军), a Marinha (中国人民解放军海军), a Força Aérea (中国人民解放军空军) e a Força de Mísseis (中国人民解放军火箭军). Desde o início do Século XXI, a RPC começou a reorganizar as forças armadas chinesas, bem como investiram na reformulação da doutrina (纲要) – que diz como a China pretende lutar, se preciso – e capacidades militares (战斗条令) – os meios que o estado chinês possui para implementar planos de deterrência11. Uma das reformas a serem apontadas dentro do PLA é no que se refere a sua natureza originalmente revolucionária: o exército fora moldado através da luta de classes e ideologicamente doutrinado para a proteção do líder chinês sob qualquer circunstância. Com a reestruturação na doutrina do exército, o PLA adotou uma abordagem mais nacionalista e abrangente, comumente aceita e praticada pelo Ocidente: defesa dos interesses econômicos e do prestígio nacional nas relações internacionais, bem como a preservação da soberania nacional e integridade territorial12.

Sob a liderança de Xi Jinping, reformas mais gerais foram implementadas no que se refere a gestão do sistema de liderança, estrutura de escala militar, promoção de talentos dentro das forças armadas, integração civil-militar, entre outros. Considerada como a maior reestruturação militar em três décadas, as reformas foram projetadas para tornar o PLA uma força mais enxuta sem perder sua capacidade de defesa nacional, capaz de conduzir todos os tipos de operações conjuntas que Xi Jinping acredita serem de suma importância para competir com as forças armadas estadunidenses. De acordo com seu discurso no 19º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês (PCC)1, o líder chinês acredita que até 2035 o PLA será uma força totalmente modernizada e um exército de primeira classe em 2050. As forças armadas chinesas são subordinadas ao Partido, nesse sentido, os oficiais de carreira militar são também membros do Partido, “responsáveis ​​por garantir que as ordens partidárias sejam cumpridas em todo o PLA”, além de haver “oficiais responsáveis ​​por decisões pessoais, propaganda e contra-espionagem” dentro do PLA13 .

“Um militar é feito para lutar. Nossos militares devem considerar a capacidade de combate como o critério a ser cumprido em todo o seu trabalho e se concentrar em como vencer quando for convocado. Tomaremos medidas sólidas para garantir a preparação militar para todas as direções estratégicas e progrediremos na prontidão para combate tanto nos campos de segurança tradicionais como nos novos. Vamos desenvolver novas forças de combate e forças de apoio, conduzir o treinamento militar em condições de combate, fortalecer a aplicação da força militar, acelerar o desenvolvimento de forças armadas inteligentes e melhorar as capacidades de combate para operações conjuntas com base no sistema de informação de rede e a capacidade de lutar em condições multidimensionais. Isso nos permitirá moldar com eficácia nossa postura militar, administrar crises e deter e vencer guerras.”

Xi Jinping (18/10/2017 [tradução própria])1 .

Apesar de a reorganização chinesa preocupar a comunidade internacional, principalmente os EUA e os países vizinhos da RPC, o poder militar e sua utilidade tem decaído conforme as discussões sobre Paz e Segurança avançam, além disso, a beligerância se provou pior para a economia dos países do que a cooperação comercial – mesmo considerando as discrepâncias de poder econômico relativo entre os países do sistema internacional14. Segundo Michael McDevitt15, os países que fazem fronteira com a China e os que que tem alguma distancia imposta pelo mar, seriam facilmente derrotados em um conflito armado – salvo, talvez, o Japão. A insegurança regional quanto ao país tem muito a ver com suas ações econômicas e político-diplomáticas, mas o autor aponta que as boas relações entre os países devem amenizar a ansiedade que sentem sobre a modernização do PLA. McDevitt não acredita que a RPC pare seus projetos de modernização militar em troca de manter os ânimos mais calmos, e finaliza: “pela primeira vez desde o almirante Zheng He da Dinastia Ming, [a China] seja capaz de projetar poder em busca de objetivos limitados em qualquer lugar ao longo do litoral Indo-Pacífico.” Por fim, como apontado por Jan-Philipp Wagner6, o soft power é um tipo de poder muito complexo que demanda muito tempo para ser construído, parece muito improvável que Pequim jogue fora anos da iniciativa chinesa em promover seu soft power a fim de ganhar a confiança internacional para simplesmente jogar tudo para o alto numa tentativa irracional de atingir seus objetivos através do hard power, um recurso necessário para as nações, mas cada vez mais ultrapassado16.

Oi pessoal! 大家好!Espero que tenham gostado do texto dessa semana! Preciso que deixem comentários indicando se desejam que explique cada um dos braços do PLA – exército, naval, força aérea, mísseis e poder espacial – em um outro texto, ou não. A opinião de vocês é sempre muito bem-vinda! Semana que vem, se não houver nenhum pedido sobre o PLA, falarei um pouco sobre o hard power econômico da China. Até logo! 回头见!


Referências

  • Imagens: Artilharia do Comando da Região de Xinjiang [veja aqui]; Treinamento de Soldados que disparam contra inimigo [veja aqui]; Veículo de lançamento de mísseis[veja aqui]; Tanques de batalha do 76º Grupo Armado do PLA [veja aqui]; Treinamento tático do 78º Grupo Armado do PLA [veja aqui]; Veículo de assalto do 77º Grupo Armado do PLA [veja aqui]; Fragatas de mísseis guiados Meizhou (Hull 584) e Liu Panshui (Hull 514) + Lançamento de míssil guiado pela fragata Qujing (Hull 508) [veja aqui]; JH-7 caça-bombardeiro [veja aqui]; Aeronave preparada para treinamento de lançamento de foguetes + Lançamento de foguete por piloto da PLA Naval Aviation University [veja aqui]; Soldados em MOPP preparam o míssil balístico DF-21A [veja aqui]; Treinamento da polícia armada contra ataques químicos [veja aqui]; Soldados das Operações Especiais da PAP [veja aqui]; Soldados das Operações Especiais da PAP [veja aqui]; Unidade da Polícia Armada (PAP) [veja aqui]; Distribuição região das forças armadas chinesas [veja aqui]; Estrutura do Exército da Libertação Popular [veja aqui].
  • 1 Xi Jinping. “Secure a Decisive Victory in Building a Moderately Prosperous Society in All Respects and Strive for the Great Success of Socialism with Chinese Characteristics for a New Era.” 19th National Congress of the Communist Party of China. 18/10/2017.
  • 2 Darren Lim; Victor Ferguson. “Power in Chinese Foreign Policy.” In: Jane Golley; Linda Jaivin; (et al) (eds). “Power.” p. 55-60. ANU Press. 2019.
  • 3 Joseph Nye Jr. “O Futuro do Poder.” São Paulo: Benvirá. 2012.
  • 4 Bruno Leal Pastor de Carvalho. “A ‘Paz de Vestfália’: um marco das relações internacionais.” Café História, Artigo, 29 de janeiro de 2018.
  • 5 Matteo Pallaver. “Power and Its Forms: Hard, Soft, Smart.” Tese submetida ao Departamento de Relações Internacionais da London School of Economics para obtenção do título de Mestre em Filosofia. 2011.
  • 6 Jan-Philipp N. E. Wagner. “The Effectiveness of Soft & Hard Power in Contemporary International Relations.” E-International Relations, 14/05/2014.
  • 7 Evelyn Goh. “The Prospects for a Great Power ‘grand Bargain’ in East Asia.” In: Glenn Russell W. (ed).”New Directions in Strategic Thinking 2.0: ANU Strategic & Defence Studies Centre’s Golden Anniversary Conference Proceedings, p. 51-62. ANU Press. 2018.
  • 8 Noam Chomsky. “A nova guerra contra o terror.” Estudos Avançados, vol. 16, nº 44. 2002; Tales dos Santos Pinto. “Os EUA e a Guerra ao Terror.” Brasil Escola, 20-?.
  • 9 Forrest E. Morgan; Karl P. Mueller; Evan S. Medeiros; (et al). “China’s Thinking on Escalation: Evidence from Chinese Military Writings.” In: RAND Corporation (ed). “Dangerous Thresholds: Managing Escalation in the 21st Century“, p. 47-82. 2008.
  • 10 Ivan Eland. “Is Chinese Military Modernization a Threat to the United States?” Report. Cato Institute. 2003.
  • 11 Michael S. Chase; Arthur Chan. “China’s Evolving Approach to “Integrated Strategic Deterrence.” capítulos 2 (9-18) e 3 (19-34). Editora: RAND Corporation. 2016; You Ji . “The PLA, the CCP and the Formulation of Chinese Defence and Foreign Policy.” In: Zhang Yongjin; Austin Greg (eds). “Power and Responsibility in Chinese Foreign Policy” p. 105-31. ANU Press. 2013.
  • 12 Anthony H. Cordesman; Joseph Kendall. “China Military Organization and Reform.” Center for Strategic & International Studies (CSIS). 01/08/2016.
  • 13 Defense Intelligence Agency. “China Military Power – Modernizing a Force to Fight and Win.” 2019.
  • 14Pedro Henrique M. Albuquerque; Danilo Eiji F. Shimabuko. “O Efeito de Conflitos Armados no Preço de Ações Brasileiras: Um estudo de eventos.” Revista Brasileira de Biometria, vol. 31, nº1: 157-175. 2013; Amelie Brune; Thorsten Hens; Rieger (et al). “The War Puzzle: Contradictory Effects of International Conflicts on Stock Markets.” Swiss Finance Institute, Research Paper no. 11-21. 2011; Gerald Schneider; Vera E. Troeger. “War and the World Economy: Stock Market Reactions to International Conflicts.” Journal of Conflict Resolution 50, no. 5: 623–45. 2006
  • 15 Michael McDevitt. “Regional Dynamics in Response to Alternative PLA Development Vector.” In: Roy Kamphausen; David Lai (eds). “The Chinese People’s Liberation Army in 2025.” Strategic Studies Institute & United States Army War College Press. 2015.
  • 16 Colin S. Gray; “Hard and Soft Power: The Utility of Military Force as an Instrument of Policy in the 21th Century.” Report. Strategic Studies Institute & US Army War College Press. 2011.

2 respostas em “Hard Power chinês”

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